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O Medo Não É Seu Inimigo — É o Sinal Que Você Ainda Não Aprendeu a Ler

Por Mateus Oliveira · Viva em Movimento · Leitura: ~7 minutos

 
O medo, para algumas pessoas, é um dos gigantes da alma. Ele define grande parte das nossas estratégias de vida.
 
Homem com expressão de medo

 

O medo em si não é negativo. O medo é uma reação instintiva, fruto da evolução da nossa espécie e motivo da nossa sobrevivência. Ter medo não é ruim. O medo tem causas objetivas e diretas. O medo tem efeitos físicos, como por exemplo a taquicardia e os olhos arregalados. O medo tem pavores psíquicos. O medo em si, como eu disse, não é algo que nos destrói — mas é preciso analisar e pensar para que o medo não nos domine.


Sobrevivemos porque temos medo

Em primeiro lugar, nós sobrevivemos como espécie porque temos medo. O medo de um espaço escuro, o medo de feras, o medo de passar fome obrigou a nossa espécie a buscar estratégias de defesa, associações em grupo e constituições de proteção.

Existe uma característica muito rara chamada analgesia congênita. Pessoas com essa condição não sentem dor. Essas pessoas, por uma série de questões, não percebem quando seu braço está queimando, não sentem uma fratura ou uma apendicite. Raramente sobrevivem por muito tempo porque, sem a dor, não sabem quando estão correndo perigo.

"A dor e o medo são estratégias fundamentais de sobrevivência."

A dor é muito importante porque ter medo de senti-la nos afasta de experiências de risco desnecessárias. Quando sinto uma dor que não busquei, como um choque ou uma queimadura, meu corpo manda uma mensagem para que eu reaja.

Ter medo de andar em um lugar perigoso quando posso ser assaltado ou agredido é uma prudência que vai me levar a evitar saídas desnecessárias. O medo de ter um acidente de carro pode me levar a ser um motorista mais consciente. Até o medo de uma ressaca pode ser uma ação educativa para que eu controle a ingestão de bebida alcoólica. O medo de ficar sem dinheiro pode ser um estímulo para me tornar uma pessoa mais prudente nos gastos.

Logo, pensando como uma advertência diante de um perigo real, o medo não é ruim. O medo é uma forma de alcançar melhor estratégia e agir melhor.


Quando o medo vira fobia — e por que isso é diferente

Nós temos medos reais e medos imaginários. Podemos pensar nas fobias. As fobias são características psíquicas que vão além da racionalidade de uma causa. As aranhas podem ser venenosas. Quando estou em um ambiente em que há várias aranhas, eu tenho medo de ser picado. Já fui picado por uma aranha na infância. Na minha casa, as pessoas batiam o sapato antes de calçá-lo por medo de escorpiões ou aranhas. Esses são medos objetivos.

Eles podem se transformar em fobia. Existe, por exemplo, a ofidiofobia, que é o medo de cobras. Eu devo ter medo de cobras quando estou no meio do mato e aparece uma cobra. Esse medo é saudável, tem base e é explicável. Porém, pode se transformar em fobia. A simples presença de uma aranha no ambiente ou a simples imagem de uma cobra podem despertar uma taquicardia, boca seca e uma ansiedade muito maior do que o risco real.

"Quando um medo me paralisa por completo, ele deixa de ser apenas um medo e se torna uma fobia. É um pavor que não consigo controlar."

Ter o cuidado de balançar um sapato para verificar se não há um escorpião ou uma aranha é prudência. Evitar andar em ambientes com cobras venenosas sem proteção adequada também é prudência. Se eu não tiver essa prudência, tenho temeridade — agir com excesso de confiança.

Eu defino a coragem como a capacidade de enfrentar os medos sem deixar de ser prudente. Quando a prudência é excessiva, ela pode virar covardia. Quando não existe medo algum, pode surgir a temeridade.


O medo como estratégia — e não como fraqueza

O medo pode ser positivo porque me faz pensar em boas estratégias. Tenho certo medo do declínio da idade, então procuro ter uma alimentação equilibrada, praticar esportes, fazer acompanhamento médico e tomar vacinas. Isso não impede completamente o envelhecimento, mas pode retardar seus efeitos.

Agora, o medo paralisante da morte é outra questão. O medo pode esconder outras questões e sentimentos. Mas quando ele é estratégico, pode ser uma aliança para me tornar uma pessoa melhor.

"No campo financeiro, afetivo, da saúde ou do trabalho — uma dose de medo acompanhada de prudência pode me levar a não apostar todas as fichas em uma única jogada."


A sociedade que usa o medo como controle

O medo é tão forte que muitas vezes é instrumentalizado por pessoas e sistemas políticos. Expressões como "vote em mim porque o outro é o caos" utilizam o medo como mecanismo de persuasão. O medo da fome, da inflação, da desordem social e da violência é um argumento poderoso.

Muitos líderes religiosos, durante determinados períodos históricos, falavam mais sobre o medo do inferno do que sobre o amor a Deus. Da mesma forma, alguns candidatos não explicam o que pretendem fazer — apenas afirmam ser a única alternativa possível. Estão usando o medo como forma de controle.

Pais ou adultos que assustam crianças para que elas não façam algo perigoso também utilizam o medo como estratégia de controle. O medo é extremamente eficaz para isso.

"Por essa razão, devo saber quais são os meus medos. Se eu não os conhecer, outras pessoas poderão identificá-los e utilizá-los contra mim."

Vivemos em uma sociedade marcada pelo medo. Diversos pensadores observaram isso e destacaram especialmente três grandes medos: as fobias em geral, a timidez — essa me persegue — e o medo da morte.


Como enfrentar o medo sem ser dominado por ele

Encarar o medo de frente é importante. Em alguns casos, especialistas falam de exposição gradual àquilo que causa medo. Primeiro observo imagens, depois vídeos e, por fim, enfrento a situação de maneira controlada.

Mas se o medo paralisa sua vida, é hora de buscar ajuda profissional. Pode existir outra questão pessoal provocando essa paralisia e levando a problemas graves, como síndrome do pânico ou agorafobia — o medo de sair de casa e enfrentar a rua.

O medo não é ruim. O medo é uma lembrança de que eu não sou todo-poderoso. Eu não sou infinito e não sei tudo. O medo pode ser usado como uma estratégia para que eu não tome medidas excessivas e para que eu não perca a noção do perigo.

O excesso de medo nos leva à paralisia da covardia. A falta de medo nos leva a uma existência temerária. É preciso moderar o medo e, para isso, conhecê-lo e aprender com ele.


O sábio morre menos do que o tolo

Um filósofo de quem gosto muito, Michel de Montaigne, dizia que filosofar é aprender a morrer. Todo o objetivo da filosofia seria aprender a morrer. Isso pode soar terrível, mas não era uma visão necessariamente negativa. A ideia era simples: todos nós vamos morrer. É inevitável. Todos temos um destino e um encontro com a morte.

Filosofar seria parar de dar a esse destino inevitável um excesso de força. E como se aprende a morrer? Vivendo bem. Um dia de cada vez. Com foco no presente, sem excesso de angústia pelo passado e sem excesso de projeção sobre o futuro.

"Os medos também são estratégias. E sabendo que o final é inevitável, o prazer está na viagem."

Aprender sobre o meu final inevitável valoriza o presente. Se um dia eu não terei mais as pessoas que amo, quero estabelecer com elas uma ligação forte agora. Se um dia eu posso não ter mais saúde, quero aproveitar os dias em que a tenho.

O covarde vive morrendo. Em função do seu medo, não adquire prudência — adquire covardia. Acaba não fazendo aquilo que considera correto porque teme desagradar os outros ou porque teme o julgamento alheio.

"O sábio sabe que tem medo, mas não é dominado por ele. Sabe que não é imortal, que não é onipotente e que a vida é breve."


Dar nome aos próprios demônios

Também é importante aceitar o próprio medo. Reconhecer que determinadas situações causam desconforto e perguntar o que exatamente elas estão expondo em nós. Aceitar-se como alguém falho, imperfeito e em constante construção.

Olhar para os próprios medos é fundamental. Existe uma ideia interessante: dar nome aos próprios demônios. Quando reconhecemos aquilo que nos assusta, passamos a conviver melhor com esse sentimento.

Eu tenho medo disto. Essa é uma característica minha. O que posso fazer para diminuir esse medo? Talvez eu conviva com ele pela vida inteira. Talvez não. Mas se eu não lhe der um nome, se eu não olhar de frente para as minhas fraquezas, dificilmente aprenderei a lidar com elas.

Todos temos fraquezas. É impossível alguém não tê-las. O importante é conviver melhor com elas, evitar situações que provoquem medo excessivo e estimular experiências que fortaleçam nossa capacidade de enfrentamento.

"O medo não é um defeito. O medo é um sinal de alerta. Por isso devemos prestar atenção ao que ele está tentando nos dizer."


A história da peste — e os que morreram de medo

Há uma história de que gosto muito. A peste estava indo para uma grande cidade e um médico a encontrou pelo caminho. A peste disse que iria matar cem mil pessoas. Tempos depois, o médico reencontrou a peste e reclamou que haviam morrido muito mais pessoas do que ela prometera.

A peste respondeu que havia matado apenas aquelas que dissera. As demais morreram de medo.

Talvez um dia eu morra de alguma doença, de alguma tragédia ou de alguma limitação inevitável da vida. Mas é importante não estar entre aqueles que morrem de medo antes de morrer de fato.

"A melhor resposta ao medo é olhar para ele e dizer: tudo bem, eu não o convidei, mas você faz parte de mim. E, mesmo assim, vamos seguir adiante."

Porque viver é muito superior a morrer de medo.

Referências:

 

 

Este conteúdo tem finalidade informativa e reflexiva. Caso o medo esteja afetando sua qualidade de vida de forma significativa, considere buscar apoio de um psicólogo ou psiquiatra. 


Por Mateus Oliveira
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