Por Mateus Oliveira · Viva em Movimento · Leitura: ~9 minutos
Trabalhe enquanto eles dormem. Se você quer, você consegue. Não existe desculpa, só falta de vontade. Frases como essas estão em todo lugar — e talvez sejam parte do motivo pelo qual tanta gente se sente exausta o tempo todo.
Autorresponsabilidade é importante. Ninguém aqui está defendendo o oposto disso. Mas existe uma linha entre "eu sou responsável pelas minhas escolhas" e "tudo que acontece comigo — bom ou ruim — depende inteiramente de mim". Essa segunda frase, disfarçada de motivação, tem um nome mais honesto: tirania. E ela está deixando muita gente doente.
A ilusão do controle total
A mente humana adora a ideia de controle. É confortável acreditar que, se você se esforçar o suficiente, planejar direito e "pensar positivo", o resultado vai vir. A psicologia comportamental estuda esse viés — a tendência de superestimar o quanto realmente controlamos os próprios resultados, mesmo quando fatores externos pesam mais do que gostaríamos de admitir.
A realidade é mais desconfortável: existem fatores que fogem do seu controle de curto prazo. O cansaço do corpo. O contexto econômico em que você nasceu. A necessidade biológica de descanso, que nenhuma quantidade de disciplina consegue negociar.
Tentar controlar o incontrolável não é ambição. É a receita mais eficiente para a frustração crônica.
A tirania da positividade
A psicóloga Susan David, da Harvard Medical School e autora do livro Agilidade Emocional, deu nome exato a esse fenômeno: tirania da positividade. Ela descreve como a obsessão cultural por manter só pensamentos positivos força as pessoas a reprimir emoções perfeitamente normais — tristeza, frustração, cansaço — como se sentir essas coisas fosse uma falha de caráter.
O problema é que reprimir não elimina. Só empurra a emoção pra baixo do tapete, de onde ela geralmente volta mais forte.
"A lamúria do indivíduo depressivo de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível." — Byung-Chul Han, Sociedade do Cansaço
Já escrevi sobre esse mesmo tema por outros ângulos — em A Falta de Permissão Para Sofrer, sobre como aprendemos a comparar e minimizar nossa própria dor, e em A Pressão de Parecer Feliz o Tempo Todo, sobre o preço de manter uma máscara de positividade constante. Se esse tema te tocou, vale a leitura complementar.
De onde vem esse cansaço: a sociedade do desempenho
Pra entender por que isso ficou tão intenso nas últimas décadas, vale recorrer a um dos pensadores mais relevantes sobre o assunto: o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha desde os anos 1980 e professor na Universidade das Artes de Berlim. Em A Sociedade do Cansaço (lançado na Alemanha em 2010 e no Brasil em 2015), Han descreve uma virada histórica na forma como a sociedade nos cobra.
No século XX, vivíamos o que ele chama de sociedade do controle: regras externas, autoridade explícita, um "não pode" bem definido. Havia rigidez — mas essa rigidez, paradoxalmente, permitia foco profundo. Sem tantos estímulos disputando atenção, era mais fácil mergulhar demoradamente numa única tarefa, tolerar o tédio, e é justamente o tédio que sustenta a criatividade e a compreensão mais profunda.
No século XXI, essa lógica se inverteu. Não há mais um chefe externo dizendo "não pode". Existe um "você pode tudo" constante — e esse excesso de positividade é, segundo Han, mais esgotante do que qualquer proibição jamais foi. Deixamos de ser vigiados por uma autoridade externa e nos tornamos gestores de nós mesmos, cobrando desempenho o tempo todo, sem ninguém pra culpar além de nós mesmos quando falhamos.
"O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que isola o indivíduo, aprisionando-o em si mesmo." — Byung-Chul Han
Han vai além e afirma que o excesso dessa cobrança de desempenho leva ao que ele chama de "infarto da alma" — o esgotamento de quem tenta, sem parar, "dar conta de tudo" numa rotina multitarefa, autogerida, sem espaço pra tédio e sem tempo pra profundidade.
Vale um parêntese importante aqui: essa é a leitura filosófica de Han sobre fenômenos como esgotamento, dificuldade de concentração e exaustão emocional — não um diagnóstico médico. Se você reconhece esses sinais na sua própria rotina de forma intensa ou prolongada, o caminho mais seguro é conversar com um profissional de saúde, não substituir esse cuidado por reflexão filosófica.
O preço que eu quase não vi
Confesso que já vivi essa filosofia na pele. Houve uma fase em que entrei de cabeça na lógica do "enquanto eles dormem, eu trabalho" — noites em claro, tentando produzir mais, sempre mais.
O que eu não tinha percebido é que esse tipo de esforço cobra um preço que não aparece na hora. Passar meses trabalhando duro, noite a fio, extremamente cansado, muda a forma como você trata as pessoas mais importantes da sua vida. O cansaço acumulado te deixa mais curto, mais estressado — e quem paga por isso, na maioria das vezes, não é o trabalho. É a família.
Foi nesse período que percebi: o custo estava alto demais. Eu estava roubando tempo de qualidade de quem eu mais amo em troca de uma produtividade que nunca tinha um ponto final satisfatório. Foi aí que decidi pisar no freio.
E o que mudou de verdade não foi só a rotina — foi a forma como passei a medir o que é "vitória". Tem gente que se sente realizada com casa nova, carro, patrimônio acumulado — e não tem nada de errado nisso. Mas eu me encontrei do outro lado: hoje sinto que venci quando tenho tempo pra família, quando consigo descansar sem culpa, quando dá pra tomar um sorvete ou jogar uma bola com meu filho sem a cabeça em outro lugar. Coisas simples — que só passam a valer alguma coisa quando você para de correr o suficiente pra enxergá-las.
Essa é, no fim, a filosofia do Viva em Movimento.
O que isso tem a ver com o seu dia a dia
Talvez você não trabalhe 80 horas por semana nem more numa metrópole caótica — mas provavelmente já sentiu esse peso em versões menores: a culpa de descansar num domingo. A sensação de estar sempre "atrás" mesmo fazendo bastante. A dificuldade de simplesmente não fazer nada sem se sentir improdutivo.
Isso não é falha pessoal. É o resultado esperado de viver numa cultura que transformou o descanso em preguiça e o limite em fraqueza.
Já falamos sobre um desdobramento bem concreto disso — a lógica de trabalho que nos ensina a associar valor pessoal a produtividade — no artigo Escala 6x1, Descanso e Culpa: Por Que Demorou Tanto Para a Gente Aprender Que Merece Parar. Se a tirania do "só depende de você" ressoou em você, esse artigo aprofunda o lado mais estrutural — o do trabalho — dessa mesma exaustão.
O que ajuda de verdade
Nenhuma dessas mudanças é sobre desistir de metas ou parar de se esforçar. É sobre trocar uma relação doentia com produtividade por uma relação sustentável.
Trocar perfeição por consistência real. A busca por fazer tudo perfeito, o tempo todo, é uma das formas mais eficientes de desistir mais cedo. Já escrevi sobre isso em Como se Movimentar Mais no Dia a Dia — Sem Academia, Sem Culpa e Sem Precisar de um Plano Perfeito: o movimento imperfeito e consistente vence, de longe, o plano perfeito que nunca sai do papel. A mesma lógica vale pra praticamente qualquer área da vida.
Aceitar que descansar não é perder tempo. É parte do processo, não uma pausa nele. Corpos e mentes que nunca descansam não produzem mais — produzem pior, e por menos tempo.
Fazer as pazes com o próprio ritmo. Sua jornada não precisa parecer com a de ninguém que você segue nas redes. A comparação constante com o ritmo alheio é, em grande parte, o combustível dessa tirania — porque sempre existe alguém "mais produtivo" pra te fazer sentir atrasado.
O que fica no final
Mover-se com saúde e leveza não é o mesmo que correr até cair de exaustão. É respeitar os próprios limites — inclusive quando isso significa parar, descansar, ou simplesmente não fazer nada por um tempo.
A frase "só depende de você" tem uma verdade pequena dentro de uma mentira grande. Depende de você, sim — mas não sozinho, não sem limites, e não sem o direito de descansar no meio do caminho.
Referências:
- HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Vozes, 2015.
- DAVID, Susan. Agilidade Emocional. Sinopsys/Objetiva.
Este conteúdo tem finalidade reflexiva e informativa sobre comportamento e cultura contemporânea, com base em obras filosóficas e psicológicas publicadas. Não substitui avaliação ou acompanhamento de um profissional de saúde mental.

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