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Aquilo Que Pensam de Mim — e Por Que Isso Não Deveria Decidir Quem Eu Sou


Por Mateus Oliveira · Viva em Movimento · Leitura: ~7 minutos

 

mulher se olhando no espelho

 

Os gregos antigos tomavam o universo como algo finito e ordenado — como se fosse uma grande máquina, ou talvez um organismo vivo. E nós, cada um de nós, não passaríamos de células desse grande organismo.

Como não estamos do lado de fora dele, nunca conseguimos ter ideia do todo. Olhamos tudo de dentro e achamos que o interior do organismo é o universo inteiro. Se pudéssemos ver de fora, perceberíamos que ele é ordenado, articulado de forma quase impecável — cada parte cumprindo espetacularmente o seu papel. Para os gregos, o divino era exatamente essa harmonia funcional.


Qual é o meu papel nesse universo?

Você pode se perguntar: o que isso tem a ver comigo?

"Conheça-te a ti mesmo. Veja aquilo que você faz de melhor, observe seus talentos, suas forças. A natureza não te daria talentos se não fosse para você explorá-los ao longo da vida."

Não existe acaso nesse sistema. Embora tenhamos particularidades, especificidades, todos nós compartilhamos algo em comum — e os gregos consideravam essa a nossa maior força: a capacidade de pensar. A capacidade de articular ideias.

Por isso, quem pensa bem cumpre melhor o seu papel cósmico. Quem pensa mal, atrapalha um pouco esse funcionamento. E a vida boa, segundo essa visão, é a vida em busca do aperfeiçoamento da inteligência — o que os gregos chamavam de nous. Quanto mais aperfeiçoada a inteligência, melhor a vida. Quanto melhor a vida, mais harmoniosa a integração com o todo.


O presente que não precisa de justificativa

Mas o que isso significa na prática? Em que medida isso ajuda a viver melhor?

Antes de mais nada, os gregos tinham horror a tempos que não são o presente. O passado já não é mais — ele só existe enquanto memória, e a memória é construída agora, no presente. É agora que lembramos dos que já não estão mais aqui.

O futuro, da mesma forma, é só projeção, antecipação, vislumbre. E também é vivido agora.

"Tudo é agora. O passado e o futuro são presente."

A vida boa, a mais harmoniosa possível, é a vida plena — e a plenitude implica um presente que se basta. Um presente que esgota nele mesmo a sua razão de ser, que não precisa de mais nada para se justificar.

Você sabe quando isso aconteceu — quando viveu um momento tão completo que nem percebeu o tempo passar. E sabe também o contrário: quando a maravilha do presente é interrompida pela lembrança de um compromisso, de uma agenda, de algo que ficou pendente. Nesse momento, a plenitude dá lugar à angústia da vida paralela — a vida que você imaginou estar perdendo enquanto vivia a real.


O beijo que não pensa na louça

Você certamente já viveu isso. Em algum momento, beijou alguém de um jeito tão presente que não pensou na louça para lavar, no compromisso do dia seguinte, na roupa que estava vestindo, no banho que ainda não tinha tomado.

Porque se alguma dessas coisas passou pela cabeça durante o beijo, ele não foi pleno. E está descartada, naquele instante, a possibilidade de harmonia completa com o presente.

Os americanos hoje chamam isso de mindfulness. Mind indica a mente, o espírito. Full indica o preenchimento. Ness indica substantivo. A vida que confere mindfulness é exatamente a vida que os antigos consideravam harmoniosa com o todo.

Aplicação prática: a próxima vez que perceber que está fazendo algo prazeroso enquanto a cabeça está em outro lugar — terminando uma refeição enquanto já pensa na próxima tarefa, por exemplo — esse é o sinal exato do que este texto está descrevendo. Não é sobre fazer mais. É sobre estar inteiro onde você já está.


O escravo do olhar do outro

Quando essa integração acontece, existem sintomas perceptíveis. Um deles — talvez o mais comum — é a inquietação com o que os outros pensam de você. Pior ainda: a inquietação com o que os outros vão pensar.

Por conta desse desejo de ser aplaudido, dessa necessidade de ganhar do outro um olhar de admiração, de precisar ser amado o tempo inteiro, você passa a adequar a própria vida à expectativa de quem está observando. Ao valor que o outro atribui à sua decisão. À forma como ele acha que você deveria se comportar.

E sem perceber, você foi se tornando escravo. Escravo do olhar do outro — sem coragem para agir de acordo com o próprio discernimento, com a própria lucidez, com os próprios valores.

"Faça o que fizer, pense o que pensar, diga o que disser, tenha os valores que tiver — haverá quem te aplauda e haverá quem te odeie."

Se você continuar à mercê do olhar alheio, talvez precise ser X e o contrário de X ao mesmo tempo. O que é, evidentemente, impossível.


A nota que você dá para si mesmo

A recomendação dos antigos aqui é direta: aposte na nota que você dá para você mesmo. Com sinceridade, com autenticidade, com rigor — sem frouxidão na hora de se avaliar.

Será sempre mais confiável e mais relevante a nota que você dá a si mesmo do que a nota que os outros dão a você. Porque você é quem mais de perto observa suas intenções, seus esforços, suas limitações reais.

Isso não significa ignorar feedback ou viver isolado de qualquer crítica. Significa parar de transferir a outra pessoa — qualquer pessoa — o poder de decidir o seu valor.


A tendência de falar mal dos outros

Existe uma inclinação quase universal: a tendência de criticar quem não está presente. Você sai por aí e ouve isso constantemente — gente detonando gente, às vezes até amigos, às vezes pessoas de quem se gosta de verdade.

Os espaços de convivência, com frequência, são espaços de maldizer.

Tem uma frase simples que carrega mais sabedoria do que parece à primeira vista: se não puder falar bem de alguém, procure calar-se. Pode parecer conformismo, mas é o oposto — é a percepção de que a harmonia com o cosmos passa também pela harmonia com os outros.

Marco Aurélio, em suas Meditações, escreveu sobre exatamente isso: a capacidade de identificar o que existe de bom em quem está à sua volta — não só talentos profissionais, mas valores morais, dignidade, honestidade, a capacidade de abrir mão de vantagens em nome de princípios.

Reconhecer a competência de vida nos outros — sua felicidade, sua capacidade de apreciar a existência mesmo com poucos recursos — é um sintoma de humildade e de adequação ao todo.


O que fica

São muitos os sintomas que podem indicar se você vive em harmonia com o que realmente importa, ou se vive na contramão dela — preso ao olhar alheio, ao mal dizer, à comparação constante.

A vida boa, segundo essa tradição milenar que atravessou os gregos e chegou até Marco Aurélio, não está em ser aplaudido. Está em pensar bem, em estar presente, em avaliar a si mesmo com honestidade, e em reconhecer o que existe de bom nos outros sem precisar diminuí-los para se sentir maior.

 

 

 

 

Este conteúdo é uma reflexão filosófica baseada na tradição estoica e na cosmovisão grega antiga, com objetivo informativo e contemplativo.


Referências:


Por Mateus Oliveira
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