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O Que o Futebol Me Ensinou Sobre Torcer Pelo Outro


Tempo de leitura: 6 min · Por Mateus Oliveira

Minha primeira lembrança do futebol

Camisa da seleção Brasileira



Já faz um bom tempo que o futebol não me deixa feliz ou empolgado de verdade. Nasci em 94, e talvez uma das minhas primeiras lembranças, anos depois, na infância, seja estar na sala com meu pai vendo um jogo do Santos — na época eu nem fazia ideia de qual time era. Na verdade, o que mais me chamou atenção foi um jogador específico, do meu tom de pele, e pensar: "nossa, ele se parece comigo." Mas essa ligação foi só o começo — o que realmente me prendeu foi o que aquele jogador fazia em campo: dribles, pedaladas, jogadas incríveis, num tempo em que eu nem sabia o nome dele nem entendia o que era futebol ou time. Só sabia que aquilo me dava alegria.

Vou deixar o nome desse jogador a critério da sua imaginação — guarda esse mistério comigo até o final do texto, porque eu volto nele lá na frente. Fico feliz se você compartilhar nos comentários se descobriu quem é, e qual foi o seu primeiro contato com essa paixão nacional.

Como a maioria das famílias brasileiras, nos reuníamos na frente da televisão, ou no barulho das ruas e bares movimentados da cidade grande em que cresci — principalmente em época de Copa, enquanto um jogo do Brasil acontecia. A euforia de torcer sem saber direito o motivo daquilo ter tanta importância. Uma vitória não mudava nada na minha vida, mas mudava a vida de todo mundo à minha volta. Os adultos pareciam felizes, a festa durava mais tempo, e a brincadeira com meus primos e amigos do bairro também.

2002: o ano em que tudo parecia perfeito

Dei sorte. O time brasileiro daquela geração era realmente muito talentoso. Lembro bem da Copa de 2002 (Coreia do Sul/Japão), com aqueles jogadores lendários — Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo — vencendo a Alemanha por 2 a 0. Aquilo me marcou. Eu tinha apenas 7 anos, tentando entender aquele momento histórico na minha vida e na de tantos outros brasileiros, vendo todo mundo ao meu redor feliz, se abraçando, cantando. Aquilo sim foi um momento mágico.

Até que o tempo passou — e o tempo sempre passa — e o cenário mudou. Diziam que o futebol tinha mudado, mas eu não era a pessoa certa pra opinar sobre isso: estava no começo de uma paixão, empolgado com o que via, e realmente acreditando que éramos os melhores, o país do futebol, produzindo craques aos montes.

O estalo que veio com a eliminação de 2026

Meu ponto aqui é um estalo que tive depois que o Brasil foi eliminado da última Copa do Mundo, há algumas semanas — mais precisamente dia 5 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Haaland marcou os dois gols da Noruega, aos 34 e 44 minutos do segundo tempo, e Neymar descontou nos acréscimos, batendo pênalti, já nas oitavas de final.

Lembro de ter prometido a mim mesmo não torcer mais pela seleção depois de tantas decepções em Copas passadas. E acredito que esse não é um sentimento exclusivo meu — penso que toda essa geração que viu Romário, Rivaldo, os dois Ronaldos, se sente um pouco sem esperança de ver de novo uma equipe tão talentosa, com tantos jogadores que fizeram nossa nação feliz.

Naturalmente, eu pararia de assistir aos jogos e esse assunto sumiria do meu algoritmo aos poucos. Mas sentado ali no sofá, com minha esposa, em algum momento essa paixão nos provoca a torcer de novo — e vocês sabem o resultado final dessa última Copa. Nada bom.

2006: o time que a torcida não aceitava perder

Infelizmente não tive muita sorte nas Copas seguintes. Mesmo quatro anos depois, como sempre acontece, ainda tínhamos um time excelente. Daquele elenco, me recordo que apenas Rivaldo havia saído — se a memória não falha. Em contrapartida, tínhamos Kaká, que vinha compondo o time com muita qualidade, sendo eleito melhor jogador do Campeonato Italiano.

Sim, o amor pela seleção e pelo futebol em si era tanto que, em certo momento, passei a acompanhar outros campeonatos, todos que tivessem algum representante daquela seleção de 2006, só pra continuar vendo aquelas estrelas jogarem.

Um detalhe interessante sobre aquela Copa: era um time extremamente talentoso, e por isso mesmo a derrota parecia inaceitável pra nós, brasileiros. Quem viveu aquela época lembra: Ronaldo, Cafu, Roberto Carlos, Lúcio, e o Kaká, que já tinha entrado no fim de 2002 (inclusive marcou na final contra a Alemanha, embora não fosse titular fixo). Ronaldinho era titular absoluto; Cafu e Roberto Carlos seguiam como laterais.

Na época, a imprensa vendia otimismo. Quem esqueceria aquele clima de carnaval na concentração, aquela torcedora invadindo o gramado e abraçando o Ronaldinho, o time inteiro rindo da cena? Olhando hoje, com um olhar menos romântico, o Ronaldo — nosso maior craque — estava fora de forma, e isso era um problema real. Mas na euforia geral, nenhum torcedor ia admitir isso em voz alta.

Lembro de ler, numa revista, duas capas diferentes dizendo que o quarteto Kaká, Ronaldinho, Ronaldo e Adriano simplesmente não conseguia jogar junto — porque só o Kaká ainda tinha capacidade real de ajudar na marcação, os outros três praticamente não voltavam. O alerta técnico existiu em tempo real. Só que a narrativa de "time perfeito" era forte demais pra ser questionada.

A virada de chave

Foi bem nessa última eliminação, de 2026, que a ficha caiu de vez. Não foi um estalo instantâneo, tipo um interruptor — foi mais um acúmulo silencioso de tantas Copas indo embora do mesmo jeito, até que, dessa vez, sentado no sofá vendo o pênalti perdido e os gols do Haaland, percebi que a decepção já não doía do mesmo tamanho de antes. E foi só quando parei pra entender esse "não doer mais" que enxerguei o que realmente tinha mudado em mim.

Tive a sorte de perceber algo, nesse intervalo de anos, que foi bastante valioso pra mim: a maravilha que é se permitir torcer por algo que não é sobre você nem para você. Sem todo o nervosismo de ver o Brasil em campo, pude olhar pra cada passe, cada lance improvável, e sentir a emoção que o futebol proporciona por mais tempo.

Se a gente esticar essa lógica um pouquinho, dá pra entender que isso não vale só pro futebol. Torcer genuinamente pelo sucesso do outro é criar, pra si mesmo, novas fontes de alegria. Uma das formas mais bonitas e generosas de existir. De ver graça de novo na vida. Torcer não só por quem você conhece e convive, mas por qualquer outro que acabou de passar. O desconhecido.

Sobre aceitar quando não dá certo

Nem tudo dá certo o tempo todo pra gente. Faz parte da vida real, da realidade da vida adulta, aceitar isso. Se der ruim, o problema é sim todinho nosso. E, muitas vezes, a maré de azar é longa — a ponto de você se fechar, se amargurar, sentir raiva ou incômodo porque a grama do vizinho é de um tom de verde que a sua ainda não alcançou.

E é engraçado como isso se conecta com algo maior: sinto que estamos, silenciosamente, nos tornando cada vez mais individualistas, e acho que isso tem a ver com o fato de termos acesso demais à vida das pessoas. Lidar com tanta informação 24 horas por dia, sem estrutura emocional ou maturidade pra isso, nos coloca numa posição difícil — a sensação é de que funciona mais torcer contra, ou até escolher não se importar. Uma escolha que também já fiz em algum momento, e que, no fundo, é a mesma lógica que eu tinha com o futebol antes dessa virada: desistir de torcer pra não sofrer.

Tornar-me indiferente parecia um atalho pra viver uma vida mais anestesiada, estável, sem grandes frustrações. É um pensamento que pode parecer convidativo a princípio, mas a verdade é que isso só nos afasta do mundo real, das outras pessoas e das versões de nós mesmos que só vão existir se estivermos emocionalmente envolvidos com o mundo.

Eu gosto de não dar bola pra sentimentos que até são compreensíveis, mas que fortalecem uma versão de mim mesmo que eu não gosto de ser. Quando, como agora, eu os entendo e elaboro melhor, fica um pouco mais fácil parar de achar que eles podem me controlar. Como nos primeiros minutos de um jogo de futebol: nada está definido.

O convite

Assistir aos jogos sem toda a ansiedade do Brasil em campo me lembrou o quão prazeroso é torcer pelos outros. Mesmo tendo perdido o encanto pelo futebol depois de tantas decepções, eu adoro as emoções que ele desperta. Por isso, mesmo sem o Hexa — e sabe lá Deus quando —, sinto que saí dessa Copa um pouco vitorioso.

Na prática, isso pode ser tão simples quanto: da próxima vez que passar um jogo qualquer na TV, de um time que não é o seu, escolha ficar do lado de quem está perdendo e torcer pela virada. Ou, fora do futebol, quando um colega de trabalho conquistar algo que você também queria, tente sentir alegria genuína por ele antes de sentir qualquer outra coisa. É um músculo, e como todo músculo, cansa no começo — mas fortalece com o tempo.

A melhor parte é que, nesse caso, o prêmio aumenta quando eu o compartilho. Por isso decidi voltar a escrever e te fazer um convite: da próxima vez que seu time perder, ou o grande lance não for mais sobre você, escolha vibrar e se alegrar pela vitória de outra pessoa. Talvez assim a vida fique um pouco mais extraordinária.

E voltando lá no início: aquele jogador que me fez parar e prestar atenção na TV, com seus dribles e sua alegria contagiante — hoje eu entendo que o que me marcou não foi o time dele, nem o resultado do jogo. Foi a pura alegria de ver alguém fazer o que ama, bem feito, na frente de todo mundo. É a mesma alegria que sinto agora, redescoberta, ao torcer pelo outro sem nervosismo nenhum. Torcer muito pelo outro, até chegar a nossa vez de novo.



Por Mateus Oliveira
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